Espaço da Poesia

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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um belo poema de Fernando Pessoa...

Quero tudo novo de novo.
Quero não sentir medo.
Quero me entregar mais,
me jogar mais, amar mais.
Viajar até cansar.
Quero sair pelo mundo.
Quero fins de semana de praia.
Aproveitar os amigos e abraçá-los mais.
Quero ver mais filmes, ler mais.
Sair mais.
Quero não me atrasar tanto,
nem me preocupar tanto.
Quero ter momentos de paz.
Sorrir mais e ajudar mais.
Quero ser feliz, quero sossego.
Quero me olhar mais.
Tomar mais sol e mais banho de chuva.
Preciso me concentrar mais, delirar mais.
Não quero esperar mais.
Quero olhar para frente.
Quero pedir menos desculpas,
sentir menos culpa.
Quero menos ‘mas’.
Quero não sentir tanta saudade.
Quero mais e tudo o mais.
E o resto que venha se vier,
ou tiver que vir, ou não venha.

in "Livro do Desassossego"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

De Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa...

O Amor É uma Companhia

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

in "O Pastor Amoroso"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um belo poema de Mário Cesariny,...

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

in "Pena Capital"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

De Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa)

ODE MARÍTIMA (excerto)

Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um lindo poema de Fernanda de Castro....

Não Fora o Mar!

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os meus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

in "Trinta e Nove Poemas"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Da poetisa que muito aprecio Natália Correia... :)

Creio nos Anjos

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro, Ámen.
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um belíssimo poema de Natália Correia...

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

in "Inéditos"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um belíssimo e sentido soneto de Florbela Espanca...

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!…

Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…

in "Charneca em Flor"
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um pequeno mas lindo poema de Yohana Sanfer...

Sobe no teu palco,
mostra a tua cara,
ensina a tua dança.
Balança alto
a tua bandeira,
traça o teu sonho,
luta, desata o nó
da esperança.
E grita.
Que o grito ainda
não é proibido.

in Livro Da Boca para Dentro.
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Re: Espaço da Poesia

Mensagem por Beladona »

Um belo poema de Rainer Maria Rilke...

Todos os que te buscam, tentam-te.
E todos os que te encontram, ligam-te
a imagem e gesto.

Mas eu quero entender-te
como a terra te entende;
com o meu amadurecer
amadurece
o teu reino.

Não quero de ti nenhuma vaidade
que demonstre seres verdade.
Sei que o tempo
tem nome
do teu diferente .

Por amor a mim nenhum milagre faças.
Às tuas leis dá razão,
que de geração em geração,
mais visíveis são.

in O Livro de Horas
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