Monarquicos.com Monarquicos.com Fórum Monarquicos.com Vídeos Monarquicos.com Adicionar aos Favoritos
Entrevista a D. Fernando Mascarenhas, Marquês de Fronteira sobre a obra
Artigo em destaque! Entrevista a D. Fernando Mascarenhas, Marquês de Fronteira sobre a obra "Sermão ao Meu Sucessor"
2009.06.14 00:50h
Após ter demorado o meu tempo a ler, e talvez outro tanto tempo a procurar compreender aquilo que o autor poderia procurar estar a querer dizer (aproveitando igualmente para eu próprio crescer um pouco mais enquanto me deliciava com esta leitura), o "Sermão ao Meu Sucessor" uma compilação de dois Sermões escritos por D. Fernando de Mascarenhas e editados pela Dom Quixote, encontrando-se neste momento o mesmo livro à venda exclusivamente na Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. Eis-me chegado ao ponto de efectuar uma entrevista a D. Fernando, quase ,inteiramente baseada nesta excepcional obra.
Imprimir Imprimir este artigo • Texto : Pequeno Normal Grande
Fechar
Enviar artigo por email
Indique o endereço de e-mail para o qual deseja enviar uma mensagem contendo um link para este artigo:

Após ter demorado o meu tempo a ler, e talvez outro tanto tempo a procurar compreender aquilo que o autor poderia procurar estar a querer dizer (aproveitando igualmente para eu próprio crescer um pouco mais enquanto me deliciava com esta leitura), o "Sermão ao Meu Sucessor" uma compilação de dois Sermões escritos por D. Fernando de Mascarenhas e editados pela Dom Quixote, encontrando-se neste momento o mesmo livro à venda exclusivamente na Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. Eis-me chegado ao ponto de efectuar uma entrevista a D. Fernando, quase ,inteiramente baseada nesta excepcional obra.

 

 

I - Sobre a Honra, Dever e Lealdade.

 




a) D. Fernando, está a questão de Lealdade inequivocamente ligada ao Dever?

 

F.M. Há certamente uma ligação entre lealdade e dever. Porém, convém esclarecer que há deveres, como os deveres que temos para conosco mesmos, que nada têm a haver com a lealdade, já que, segundo creio, a lealdade não é do âmbito da relação consigo mesmo, mas do da relação com o outro. Por outro lado, penso que a lealdade pode ir além do dever.


b) Qual o tipo de relacionamento entre ambos?

 

F.M. A resposta já está na alínea anterior. Posso acrescentar que, genericamente, a lealdade é um dever moral para com o outro.

c) Podem estes entrar em contradição e se sim como cabe a cada um agir por forma a manter a sua integridade, não sei se se poderia dizer honra, o mais intacta o possível?

 

F.M. São concebíveis situações em que o que entendemos ser o nosso dever para com alguém pode estar em contradição com a lealdade que entendemos dever a uma outra pessoa. Não penso que seja possível dar uma resposta em abstracto, pelo menos sem uma reflexão prévia profunda sobre o assunto. A honra, no meu entender tem mais a ver com a nossa relação conosco mesmos do que com a nossa relação com os outros; no entanto, há questões de honra envolvidas na nossa relação com os outros; a honra é algo que nos devemos a nós próprios, mas pode estar inserida no contexto da nossa relação com os outros.

 


Sendo a Honra um conceito moral pessoal a cada um, no meu entender, pergunto a D. Fernando se concorda com esta minha afirmação e sobre qual crê ser o papel da Honra na presente Sociedade Portuguesa, se é que acha que esta ainda desempenha um papel na mesma?

 

F.M. Concordo consigo que a honra, na essência, é um conceito moral pessoal. Porém, existe um outro aspecto, complementar, que reside na imagem exterior da honra de uma pessoa; este, embora não essencial, não deixa de ter a sua importância. Penso que em todas as sociedades a honra é tida como um valor; costuma dizer-se que até entre ladrões existe um código de honra. Não tenho dúvidas que uma reputação honrada continua a ser um valor prezado pela maioria da sociedade, mas também poucas dúvidas me restam que o número de pessoas que prezam outros valores, designadamente, o dinheiro e a notoriedade, acima da honra é cada vez maior.

 

 



a) De volta aos conceitos de Dever e Lealdade, neste caso entre o Objecto da Lealdade ou do Dever e aquele que tem estas ligações para com tal Objecto. Deve tal relacionamento ser apenas num sentido ou deverá haver um relacionamento em ambos os sentidos?

 

F.M. Penso que aos nossos deveres para com outrém, correspondem deveres de outrém para connosco, mas eles podem não ser exactamente iguais; por exemplo os deveres de um aluno para com um professor não são exactamente iguais aos de um professor para com um aluno.


b) No caso de ser em ambos os sentidos e na eventualidade do Objecto não estar a cumprir com as suas obrigações como é que, no entender de D. Fernando, poderia ou deveria agir aquele que tem este tipo de ligações para com o Objecto? Faço esta questão por a questão inversa ser bastante mais comum e, por norma, envolver um tipo de respostas... algo mais padronizadas.

 

F.M. Para já, importa esclarecer que o objecto de que fala é um sujeito, uma pessoa. Se entedemos que o outro não está a cumprir com o que pensamos ser o dever dele para connosco, devemos chamar-lhe a atenção para o facto. Se ele não concordar com o que lhe dissermos, é porque a nossa imagem da relação não é correcta e devemos reajustá-la.

c) Ainda no seguimento da anterior alínea, quando ou como definir um limite para aquilo que é ou deve ser aceite?

 

F.M. É muito difícil responder à pergunta em abstracto. No limite penso que o problema é um problema do foro íntimo da nossa consciência, da consciência do outro e da relação entre ambas.


Denoto, nos tempos que correm, se recorre amiúde ao termo traição/traidor para com quem pensa de forma diferente de aqueles que recorrem ao uso destes termos. Assim pergunto como deve, ou pode, ser entendido o conceito traição e qual a legitimidade para o uso de tal termo, perguntando também e se possível pela diferença, que se possa entender, por uma traição e uma diferença de opinião ou vista?

 

F.M. A traição só existe q  uando há uma declaração prévia, explícita ou implícita de lealdade. Eu não posso trair alguém a quem nunca prometi, nem dei a entender, ser-lhe leal. As diferenças de opinião são apenas isso, diferenças de opinião, a menos que eu me comprometa com alguém a sustentar determinado ponto de vista ou o tenha feito implicitamente por ter aceite algum favor, seja de que tipo for, da outra pessoa.


II - Sobre o Património.


D. Fernando atribui ao Património, quanto a mim de uma forma brilhante, a definição enquanto uma entidade "viva".

a) Havendo a tendência de se tentar salvaguardar tudo quanto existe, como é encarada a situação de se ter de escolher entre qual património "salvar" em detrimento de outro?

 

F.M. Infelizmente não é possível salvar a totalidade do património que seria desejável preservar. As razões desse facto podem ser apenas financeiras (os recursos são sempre limitados), mas podem também ser físicas. O facto de se ter de escolher é, pois, uma inevitabilidade. O importante é definir critérios, que creio serem sobretudo de 2 ordens: 1) da importância relativa dos objectos em alternativa – importância dos pontos de vista histórico, arquitectónico, paisagístico, de história da arte, simbólico, etc.; 2) da viabilidade de salvar uma determinada peça de património e do investimento (não só financeiro) necessário para o fazer – pode ser preferível abandonar uma peça, se isso nos permitir salvar 10. Uma coisa é certa: as escolhas são e serão sempre dolorosas. Para proceder às opções que é inevitável fazer, há que reunir uma equipa diversificada que pondere todos os factores em questão.

 

b) Sendo que o conceito de Cultura se altera conforme os tempos. A percepção de como esta é vista igualmente pode afectar aqueles que têm de tomar decisões relativas à preferência de tratamento quanto a uma preservação. Pergunto assim a D. Fernando se estou errado nesta minha exposição e se alguma vez D. Fernando teve de escolher entre uma peça evocativa de um qualquer período, mas que pouco ou nada dissesse a D. Fernando e uma talvez menos importante, se é que assim se possa dizer, mas que tivesse mais valor ou interesse pessoal a D. Fernando?

 

F.M. Cada um de nós é um sujeito e não pode deixar de o ser, mesmo que o queira; quer isto dizer que há sempre um elemento de subjectividade nas opções que se fazem e daí o ter referido acima que essas opções devem ser tomadas em equipa. Não tenho a pretensão de ter feito sempre escolhas objectivas, embora, naturalmente me procure esforçar nesse sentido.


Supondo que percebo o que levou D. Fernando a criar a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. Pergunto a D. Fernando se não seria possível o mesmo resultado sem o recurso a uma Fundação? Como foi a opção de D. Fernando encarada pelos seus Pares à altura?

 

F.M. Só lhe posso dizer que a criação de uma Fundação me pareceu a melhor forma de alcançar os objectivos que pretendia. Importa acrescentar que o facto de não ter filhos me dava uma liberdade pouco habitual e era uma oportunidade histórica que entendi não dever desperdiçar. Quanto à forma como os meus pares o encararam, não é a mim que me compete dizer, nem haverá certamente uma resposta única; alguns reagiram positivamente e, como é natural, manifestaram-me a sua concordância, outros certamente tiveram opiniões diferentes, mas como é igualmente natural não manifestaram ou, pelo menos, não o fizeram de uma forma tão clara.


Sendo o Património, no fundo, entidades com um período de "vida" mais ou menos longo, mas com graus de perceptibilidade muito variados. Aproveito para perguntar a D. Fernando se a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna têm algum Projecto para a passagem de todo o seu acervo patrimonial igualmente para suporte digital (imagem tridimensional no meio ambiente onde se insere, raios-x das peças, amostras dos materiais das mesmas, etc.) por forma a criar um acervo patrimonial alternativo e, porque não, mais acessível aqueles que não se podem deslocar in loco para poderem apreciar o mesmo?

 

F.M. Num mundo ideal, com recursos financeiros ilimitados, sem dúvida que o teria feito, mas para fazê-lo, teria sido necessário deixar de fazer muitas outras coisas. Como quase sempre é um problema de prioridades. No entanto, alguma coisa se fez: a Fundação tem um “site” onde há alguma informação, algumas imagens e uma base de dados sobre a Sala das Batalhas e a Guera de Restauração; há, por exemplo uma reprodução com boa qualidade dos azulejos da referida sala, que podem ser vistos quase à escala 1:1 e nas zonas mais significativas é possível “clicar” e obter informação complementar.


Dou assim por terminada a presente entrevista, a qual procurou abordar a Obra "Sermões ao meu Sucessor" da autoria de D. Fernando Mascarenhas. A qual terá por ventura sido inclusive uma das minhas mais difíceis entrevistas dado o interesse e importância que a mesma obra traduz, pelo menos para mim a título pessoal. Esperando que a presente entrevista tenha sido do vosso agrado, deixo uma vez mais a D. Fernando a última palavra para que D. Fernando possa abordar alguma temática relativa a esta obra, ou não, a qual considere ser de importância para que seja dada ao conhecimento do nosso público e que não tenha sido abordada na mesma entrevista.

Paulo Especial
Comentar Comentar
  Anónimo
log-in? | registar
Restam 1200 caracteres
Comentários Comentários (0)
Este artigo não recebeu comentários. Pode adicionar o seu comentário, utilizando o link "Comentar" por cima desta mensagem.