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DOIS INTELECTUAIS DE PESO: VERGÍLIO FERREIRA E MIGUEL TORGA !!!
DOIS INTELECTUAIS DE PESO: VERGÍLIO FERREIRA E MIGUEL TORGA !!! DOIS INTELECTUAIS DE PESO: VERGÍLIO FERREIRA E MIGUEL TORGA !!!
2008.06.24 13:14h
Texto gentilmente enviado pelo Sr. Carlos Luna, o qual tomo a liberdade de aqui transcrever. As edições são da inteira responsabilidade do mesmo.
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DOIS INTELECTUAIS DE PESO: VERGÍLIO FERREIRA E MIGUEL TORGA !!!

VERGÍLIO FERREIRA (1916-1996) EM ... OLIVENÇA !!
(Vergílio Ferreira foi um dos GIGANTES da Literatura Portuguesa do Século XX; homem de
ESQUERDA, pensou-se em propô-lo para o Nobel, bem como a Miguel Torga, outro GIGANTE)
LIVRO "CONTRA-CORRENTE", NOVA SÉRIE, II
(...)
30-Maio(quarta)[1990]-Chegámos hoje de manhã de uma ida a Évora. A grande razão da ida
era uma visita a Olivença, há muitos anos engatilhada na alma - a ida. Antes de a morte
me pôr o pé encima, querioa eu pô-lo na terra que o castelhano nos rapinou. E a razão do
constante adiamento é que a viagem é bastante longa, pois que a ponte de ligação imediata
às terras do lado de lá foi dinamitada aquando do rapinanço e nunca mais reconstruída
para arrefecer  as tentações (*). Falei no caso ao Alberto Silva, centro de convergência
amiga do nosso grupo em Évora, e ele agarrou logo a mãos ambas o nosso intento para nos
ver lá e um pouco talvez recuperar o tempo perdido, agora que a Josete morreu. Se a gente
se atrasava a andar com o projecto para a frente, ele aí estava a perguntar-nos quando é
que. E de semana em semana de adiamento, a coisa foi de vez e aí fomos nós ontem
disparados a patriotismo. Mas antes de sermos patriotas, há que registar o terrível
embate com a cidade de Évora e a sua transferência para o nosso puro imaginário.(...)Mas
eu não queria falar de Évora e foi ela que se me meteu na conversa. Portanto - Espanha. O
Alberto Silva ficou surpreendido porque o projecto de ida lá era para hoje. Mas as minhas
contas do cansaço e o mais com o regresso a Lisboa logo após o de Espanha levou-me a
propor a expedição para logo depois de termos chegado. E assim se fez. Metemo-nos no
carro dele, almoçámos em Elovas e chegados pouco depois a Badajoz, derivámos para o sul.
E algum tempo depois pude ler à entrada da cidade o nome parecido de «Olivenza». Parámos
o carro para tirarmos uma foto panorâmica da cidade e senti uma tentação de logo emendar
o seu nome no seu erro de ortografia...  A cidade é grande e toda branca de leite como as
do Alentejo. Mas com grande surpresa nossa e desgosto meu, toda a cidade estava a dormir.
E isto é dito em sentido quase literal, porqwue atravessámos ruas e ruas quase sem
vivalma. A memória alentejana das suas casas estava já bastante prevertida com o
gradeamento andaluz e mouro das janelas, como o íamos verificando na cidade adormecida.
Porque na realidade toda a cidade dormia. E isso não era já bem portuguêrs, que mesmo no
Alentejo tem-se sempre um olho aberto. Olivença praticava o que Unamuno chamava o ioga
ibérico, ou seja batia a sua sorna após o almoço. Tirei as fotos clássicas da lembrança
portuguesa e quando finalmente apanhei um adulto sentado numa praça, fui-me a ele. Falava
português? Sim, e muita gente falava ainda. Aldrabice, pensei, não porque o verificasse
mas porque o tom de voz do homem era o de quem farejou em nós o desejo de que fosse assim
- e fora amável por desfastio. Adiantei a questão da passagem de Olivença para o lado de
lá, ele disse que fora há muitos anos e derivou de uma troca com Campo Maior. Deve ser a
galga(**) adiantada às crianças nas escolas. Porque o que aconteceu, como se não conta às
crianças do lado de cá, não fora bem uma questão de troca e destroca sobre compromisso
(teria de ir reler para saber se foi assim). O que aconteceu foi que Godoy, amante da
rainha - parecida com a do nosso João VI - fez mão baixa à cidade e seu termo após as
guerras napoleónocas, faltou ao compromisso de devolver o roubo sob o pretexto de que
aquilo era um valhacouto de ladrões e contrabandistas e havia o Guadiana a jeito para
fazer fronteira. A Espanha "vendeu" Gibraltar e pretende recuperá-lo. Portugal foi
rapinado  em Olivença e "ninguém" ousa tocar no assunto. Mas o Guadiana. Lá o fomos ver
com a sua ponte destruída, com sinais de que mais parecem uma dinamitação, para evitar
tentações (*). Creio, todavia, que se pensa em reconstruí-la. Sinal triste de que o
problema está morto (***). Do lado de lá do rio havia um grupo de portugueses a fazer
sinais de mãos agitadas. Seria talvez, e apesar de tudo uma saudação à memória dos
portugueses que se sonhavam existir ainda do outro lado, após quase duzentoa anos de
terem emigrado com a terra para Espanha e o desejo obstinadamente vivo de que regressem
a casa...
(...)
_______
(*)a ponte foi dinamitada ANTES, 92 anos ANTES;
(**)mentira;
(***) errado, pois a nova ponte foi construída como ponte genuinamente portuguesa. Esta
questão tem feito reviver o problema de Olivença!!!!
________________________________________________________________________________
MIGUEL TORGA (1907-1995)em Olivença (1954)
(Pseudónimo do escritor Adolfo Correia da Rocha; um GIGANTE do século XX português,
oposicionista ao Salazarismo. Definia-se como Ibérico, mas NÃO iberista; foi pensado para
um Nobel, tal como Vergílio Ferreira)
Diário, vol. VII
   Olivença, 5 de Junho de 1954 - Também as terras murcham longe da pátria. Também um
burgo pode ter saudades e mirrar-se de melancolia. Há um espírito de exílio nos lugares,
perfeitamente igual ao dos indivíduos. Que pena me fez a esfera armilar no
"ayuntamiento", murcha, introvertida, apertada em novelo como uma flor de luto! A ideia
de nação, embora historicamente se justifique, pelo menos cá neste Ocidente, não é de
certeza a última palavra em matéria de arrumação do mundo. Uma noção mais ampla e
profunda de comunidade de sentimentos e de interesses há-de substituir-se,
inevitavelmente, a essa actual fraternidade murada e compartimentada. Mas enquanto se não
esfumam no calor dum abraço universal as estremas culturais e sentimentais que nos
rodeiam, todos os enclaves são corações geográficos desterrados, a pulsar de amargura
longe do corpo procriador. A língua original que neles bruxuleia, o passado que ali se
esboroa e a memória que subterraneamente luta e persiste, são valores que, até por serem
agónicos, se tornam mais dramaticamente autênticos.
   Aqui, toda essa pungente tristeza urbana e humana existe, mágoa velada mas incurável
das coisas e dos seres. Por detrás de cada fisionomia animada ou inanimada do presente,
espreita o fantasma irresignado do ausente.
Paulo Especial
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